segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

COMO NASCEM OS DEUSES


Um clichê reciclado até não poder mais por quem deseja ridicularizar as religiões é a mania absurda que algumas pessoas têm de enxergar imagens de divindades ou santos nos lugares mais improváveis. O sujeito corta um pão de queijo no meio e, ato contínuo, vê o perfil da Virgem Maria gravado na massa quentinha; a dona de casa está prestes a jogar o tomate estragado fora quando percebe que as manchas na casca produzidas por um fungo são, imagine só, idênticas ao rosto barbudo e amoroso de Jesus Cristo.


  Vamos esquecer por um instantinho o fato de que todos os “retratos” do Nazareno feitos até hoje são frutos da criatividade iconográfica dos artistas — ele nunca foi retratado em vida, e o Novo Testamento não descreve sua aparência. Essas manifestações culinárias do sagrado, de qualquer forma, às vezes parecem tão convincentes que desencadeiam peregrinações e veneração.

  OK, você já deve ter visto situações como as que eu descrevi acima satirizadas em episódios de Os Simpsons, South Park e outros desenhos animados/seriados de TV. De fato, é difícil não rir desse tipo de coisa, mas as gargalhadas às vezes também nos ajudam a esquecer que as aparições divinas em legumes são só o exemplo extremo, ou com menos desconfiômetro, de uma tendência profundamente humana de buscar intenções e significados no mundo que nos rodeia — tendência que, aliás, é perfeitamente saudável. Sem ela, seria dureza, por exemplo, tentar entender o que as pessoas querem nos dizer — em especial quando “falam” com a gente sem usar diretamente o conteúdo das palavras, mas pequenos gestos, nuances de voz e por aí vai. Também seria muito mais complicado, se não impossível, imaginar o que um animal quer fazer — e, acredite, isso era assunto de vida e morte na época em que não éramos todos um bando de zumbis urbanos, e sim caçadores-coletores ou criadores de bichos que precisavam “entrar na cabeça” de outras espécies para capturar aquele bisão suculento, fugir daquela alcateia faminta ou evitar ser chifrado pela Mimosa. E mesmo os princípios da filosofia e da ciência nunca teriam saído do ovo se nossos ancestrais jamais fossem capazes de se perguntar sobre o significado dos raios do Sol ou das nuvens da tempestade.

Dos Macacos às Cavernas

  O fato, porém, é que, em algum momento do passado remoto, esse tipo muito especial de raciocínio começou a tomar forma no cérebro dos primeiros candidatos a gente. (Perdoe a expressão: a imagem que ela nos traz à mente é algo equivocada, como se criaturas que viveram há milhões de anos tivessem existido com o único propósito de, no futuro distante, darem origem a nós, o que não faz sentido no contexto da Teoria da Evolução.) É virtualmente impossível dizer quando foi esse momento. Os paleontólogos, sujeitos que constroem suas carreiras científicas por meio da análise paciente de restos fósseis de seres vivos do passado, costumam dizer que comportamentos não se fossilizam. Ideias e atitudes mentais menos ainda. Podemos, entretanto, tentar inferir mais ou menos o que se passava dentro das cucas cabeludas de nossos ancestrais com a ajuda de alguns resquícios fósseis e do estudo de nossos parentes vivos hoje.

  A primeira coisa que fica clara quando a gente faz esse exercício é óbvia, mas ainda assim talvez mereça ser ressaltada: provavelmente, somos o único animal a acreditar em deuses ou outros seres sobrenaturais, como espíritos dos mortos, das árvores ou das águas. Há algumas observações muito esparsas e inconclusivas a respeito de como os chimpanzés, nossos vizinhos de galho na árvore da vida, reagem diante de grandes belezas naturais (coisas que, em nós, frequentemente produzem um sentimento do sublime que costuma se aproximar da crença em “alguma coisa maior lá fora”) ou da morte de um companheiro.

  Parece que alguns desses grandes símios podem ficar extasiados diante de uma grande cachoeira, ou passar a noite em claro, “velando” o corpo de um amigo ou parente que se foi. É muito difícil saber o que se passa dentro da cabeça deles, mas o importante aqui é a constatação de que essas atitudes aparentemente “espirituais”, diferentemente das nossas, não costumam afetar o comportamento dos bichos depois das situações pontuais em que ocorrem. Para ficar apenas no exemplo dos chimpanzés falecidos e seu “velório”, por exemplo, nunca ocorreu a um deles enterrar seus mortos, nem trazer oferendas de qualquer espécie para eles — mamães chimpanzés às vezes arrastam consigo o cadáver apodrecido de seus bebês por dias a fio, o que, se é triste de doer, também indica que as pobres macacas não sabem muito bem o que aconteceu com o filhote que perderam.

  E quanto aos fósseis? Bem, só para nos situarmos cronologicamente, vale lembrar que, até uns 2 milhões de anos atrás, o cérebro das espécies da linhagem dos hominídeos, prováveis ancestrais diretos do ser humano, tinha o mesmo tamanho do de um chimpanzé típico (ou seja, um terço do nosso ou menos), aparentemente impossibilitando grandes arroubos de pensamento simbólico ou espiritual. A coisa começa a mudar de figura em torno de 1,5 milhão de anos atrás, quando certos exemplares do Homo erectus (mas não todos) apresentam capacidade craniana equivalente a dois terços da nossa. Por volta de 500 mil anos antes do presente, criaturas conhecidas como Homo heidelbergensis, que podem ter sido um ancestral comum entre a nossa espécie e os neandertais, já contavam com um cérebro quase tão avantajado quanto o das pessoas de hoje. A capacidade craniana dos neandertais, aliás, era até superior à nossa, em média.

  Mas tamanho nem sempre é documento. Ainda que o volume cerebral do Homo heidelbergensis e dos neandertais pareça amplo o suficiente para lhes conferir capacidades mentais idênticas às nossas, o fato é que é bastante difícil enxergar tal igualdade de condições quando os arqueólogos examinam as cavernas da Europa, do Oriente Médio e da Ásia onde essas criaturas viviam. Acredita-se, por exemplo, que um dos pré-requisitos para o desenvolvimento de algum tipo de religiosidade seja o pensamento simbólico — grosso modo, a capacidade de enxergar significado nas coisas além da mera utilidade imediata delas. É claro que dá uma enxaqueca terrível tentar provar a existência ou a inexistência disso simplesmente analisando uma coleção de pedregulhos e ossos de 200 mil anos, digamos, mas um possível indício físico de pensamento simbólico é a arte, entendida de um jeito amplo — vale tanto a Mona Lisa quanto um piercing feito com mindinho de mamute. Ou seja, a tentativa de usar elementos materiais para criar algo com significado estético, ou mágico/espiritual.

  No caso das espécies de hominídeos anteriores a nós, ou até nossas contemporâneas (é o caso dos neandertais, cuja forma clássica emergiu mais ou menos “junto” com o Homo sapiens, embora já tenha desaparecido), evidências desse tipo de comportamento são raras — isso se você for generoso do ponto de vista interpretativo — ou mesmo inexistentes. Nenhum neandertal jamais desenhou um bisão nas paredes de uma caverna. Uma pesquisa recente identificou uma concha decorada com pigmento ocre há 40 mil anos na Espanha que talvez seja obra de um deles — não dá para ter certeza porque os hominídeos não fizeram a gentileza de morrer do lado de sua criação para facilitar a vida dos pesquisadores que encontraram a concha.


  Fora isso, há indícios de que ao menos alguns neandertais enterravam seus mortos — Homo neanderthalensis 1 × 0 chimpanzés, portanto. Mas, quando o assunto é identificar oferendas aos mortos, como flores ou outros objetos que acompanhariam os defuntos na viagem rumo ao além, coisa presente em praticamente todas as culturas humanas, não há dados conclusivos sobre os neandertais. E, embora certos grupos de neandertais da França de fato tenham adotado a moda dos colares feitos com dentes de animais, existe um debate feroz entre os arqueólogos e paleoantropólogos sobre esse tema — muitos deles acham que essa ideia tão interessante não foi inventada de forma independente por nossos primos extintos, mas sim copiada dos primeiros humanos modernos, que estavam dando as caras na Europa Ocidental mais ou menos na mesma época. Outros especialistas tomaram as dores dos neandertais e afirmam que o timing da coisa não bate de modo a corroborar a hipótese de “aculturação” ou mesmo “plágio” — os primeiros artefatos produzidos pelo Homo sapiens só aparecem na região depois que os tais colares surgiram. Não espere que essa briga termine tão cedo.

  De qualquer jeito, a tentativa de achar ao menos o gérmen do pensamento simbólico entre hominídeos que não pertencem à nossa espécie faz a gente voltar da busca com a sensação de quem está de mãos vazias. E a coisa muda totalmente de figura quando os cientistas estudam sítios arqueológicos nos quais viviam antigos Homo sapiens. Quer dizer, muda em termos. O interessante é que simplesmente ser membro da nossa espécie não parece bastar. Os primeiros Homo sapiens surgem na África Oriental há 200 mil anos, mas o Santo Graal da complexidade comportamental primata — ou seja, o tal pensamento simbólico — só começa a dar pistas de sua presença 100 mil anos depois disso, com desenhos toscos em pedaços de pedra e, claro, colares, embora nessa época a matéria-prima preferida fosse conchinha, e não canino de raposa.

  As manifestações simbólicas, no entanto, alcançam riqueza e quantidade sem precedentes a partir de 40 mil anos antes do tempo presente, quando as cavernas da Europa, por exemplo, viraram imensas galerias de arte. É difícil não ficar de queixo caído diante das gravuras e pinturas de Chauvet e Lascaux, na França, ou de Altamira, na Espanha, só para citar alguns exemplos clássicos. De repente, as feras gigantescas da Era do Gelo passam a povoar as paredes de pedra, junto com coisas singelas (o contorno das mãos do artista marcado com tinta, igualzinho ao que uma criança de hoje faria), marotas (representações de pênis, vulvas e gente fazendo sexo) ou, o que provavelmente nos diz respeito de modo mais direto aqui, coisas aparentemente sobrenaturais.

  Sim, porque os artistas da Era do Gelo não se interessavam apenas em retratar a exuberante fauna da qual dependiam para sobreviver, mas também criaturas que nunca foram parte de nenhuma fauna do planeta. Vários desses monstros, que aparecem tanto na forma de estatuetas de marfim quanto nas paredes dos abrigos rochosos, são teriantrópicos — adorável termo grego que significa algo como “feras-homens”. Temos sujeitos com membros e tronco de gente e cabeça de leão, uma figura bípede com cauda e galhada de cervo (apelidada de “O Feiticeiro” pelos arqueólogos) — seres que parecem antecipar monstrengos de mitologias bem mais recentes cujos registros escritos chegaram até nós, como as sereias e os centauros tão conhecidos dos gregos e romanos.

  Essa, aliás, é uma das muitas hipóteses que tentam explicar o que são essas figuras, afinal de contas: elas não passariam de equivalentes paleolíticos do Minotauro e da Esfinge — seres que integravam o bestiário, ou talvez o panteão, de mitologias há muito esquecidas. Outra possibilidade é que os arqueólogos e turistas de hoje estejam vendo não retratos de seres sobrenaturais, mas sim cenas de cerimônias religiosas. Nesse caso, os monstros teriantrópicos seriam representações de xamãs — sujeitos com função social que mistura a de sacerdote, a de médico e a de vidente, entre outras — devidamente caracterizados como criaturas do outro mundo, o que ajudaria esses pajés da Era Glacial a realizar seus bruxedos, entrando em transe (talvez com uma mãozinha de determinadas substâncias alucinógenas). Ou então as feras-homens representariam um tipo de pensamento que ainda marca as tribos de caçadores-coletores e agricultores tecnologicamente “primitivos” de hoje: a de que não existe uma barreira absoluta entre a natureza humana e a dos animais, e de que é possível atravessar esse “muro poroso” em jornadas mágicas/espirituais — ou ainda a ideia de que esse tipo de travessia era possível no “tempo das origens”, no passado remoto, quando o mundo estava sendo criado.

  Seja como for, o que está claro é que, em algum momento entre a origem dos neandertais e a aurora da arte paleolítica, a crença no sobrenatural desabrochou pela primeira vez na história da Terra — e nunca mais foi embora. A questão é saber como esse tipo de crença se instalou no cérebro dos ancestrais do homem, mas é difícil refutar a ideia de que estamos falando de um fenômeno indissoluvelmente ligado ao pensamento simbólico. A sensação de ruptura entre o jeito de pensar do Homo sapiens e o dos hominídeos que viveram antes dele levou alguns cientistas a propor que, em algum momento, uma alteração genética significativa levou a uma reorganização do cérebro que possibilitou o surgimento da linguagem complexa, da arte e da religião, entre outras coisas — a “mutação que nos tornou humanos”, por assim dizer.

  O fato é que ninguém identificou esse suposto gene ainda, e outros pesquisadores apostam que, além de possíveis modificações no “hardware” do cérebro, ou seja, em sua estrutura biológica, alterações na estrutura social dos primeiros humanos de anatomia moderna também teriam sido cruciais. Por exemplo: a invenção de instrumentos de pedra um pouquinho mais eficientes do que os existentes no passado poderia ter levado a um aumento gradual da população, o que significou mais gente interagindo e trocando ideias ao longo de dezenas de milhares de anos, favorecendo o surgimento de conceitos tão esquisitos e fascinantes quanto a arte e a religião — e, assim que foram formulados pela primeira vez, tais conceitos teriam se espalhado feito fogo numa mata seca.
Para avançar um pouco mais na busca pelas raízes desse tipo de crença, no entanto, não basta a paleontologia. É preciso analisar como funcionam as mentes dos seres humanos hoje e, a partir daí, tentar imaginar como tais propriedades mentais podem ter influenciado as origens da crença em divindades.

[ Continua nas próximas postagens...]

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Autor: Reinaldo José Lopes



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